O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Poesia e cegueira: o road movie de Alexandre Rodrigues da Costa

No livro Objetos difíceis (Rio de Janeiro: 7Letras; Juiz de Fora: Funalfa, 2004), que venceu o prêmio Cidade de Juiz de Fora em 2003, li pela primeira vez a poesia de Alexandre Rodrigues da Costa (Belo Horizonte, 1972). Não gostei tanto assim dos poemas, e perdi esse autor de vista até o ano passado, quando descobri em uma livraria do Rio de Janeiro Como assistir a um road movie em pé (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016), que me fez procurar suas outras obras.
Os poemas adotam os motivos da ferida, do olhar (e o olhar ferido), do sangue, da mutilação, encenações incompletas de crimes contra a vida e, às vezes, é referido ou interpelado algum sujeito feminino, ou o que restou dele. Não são incomuns as referências a outras artes; um de seus títulos, por sinal, é Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013). Em seu último livro, o cinema recebe mais alusões.
Essa poética pareceu-me firmar-se a partir do livro de 2005, fora-de-quadro, publicado pela 7 Letras, aberto com o poema "Ut pictura poesis": "como nos diz/ o filósofo, "pegue o olho/ de uma pessoa/ qualquer,/ morta há pouco/ tempo,/ corte,/ com habilidade,/ em direção/ ao fundo,/ as três partes/ que o envolvem,/ feito isso,/ olhe para/ a película branca/ à sua frente,/ e veja,/ não talvez/ sem admiração/ e prazer,/ uma pintura/ que representará/ em perspectiva/ todos os objetos/ de fora",".
Não sei que filósofo seria esse, ignoro se o trecho se trata de invenção ou de resgate feito por Alexandre Rodrigues da Costa. De qualquer forma, é um achado do autor, pois ele bem descreve uma poética. Nesta entrevista dada a Rodrigo Guimarães, em 2008, ele afirma "trabalho com as palavras como uma espécie de rasura do olhar", e explica: "Essa rasura do olhar seria um pouco parecido com o que Francis Bacon faz em suas telas, nas quais os corpos, as faces, se tornam imagens precárias, cujos limites estão prestes se dissolverem no próprio cenário que as compõem"; "Queria que a página fosse uma ferida e que todo o livro fosse como um corpo mutilado, fragmentado.".
Em Bela Lugosi no ateliê de Kandinski, encontramos este "Exigências mínimas", que incluem a ferida e a cegueira:
Se nos
colocássemos
em uma história,
não
saberíamos
como perder
as mãos.
Devemos,
assim, expor
a superfície
ao corte,
deixar que
a lâmina
caminhe sobre
o silêncio
e atravesse
nossos olhos?
Trata-se de "a face atravessada/ por sua própria sombra" ("Lâminas", de Peso morto, publicado pela 7Letras em 2008). Cortam-se e silenciam-se a história e o referente; é muito curioso como este autor consegue aludir a possibilidades de história sem nunca, realmente, contá-las. Os olhos são cortados para que se possa examinar o próprio olhar - qualquer outra possibilidade, aparentemente, seria dolorosa demais.
No fim de "Noite plana", poema do livro A mímica invertida dos desaparecidos (7 Letras, 2014), vemos explicitada esta relação entre cegueira e anestesia:
Calma,
mais um pouco
e ficaremos cegos,
então marcaremos com sinais
coisas que não
compreendemos,
coisas que nem ao menos
servem para sofrer.
A impressão de que toda esta poesia se passa pós-trauma, e de que não ficaremos sabendo da origem do problema, qual seria a catástrofe original, expressa-se no enloquecimento do olhar e da anatomia, em imagens impressionantes como a do início de "À deriva", de Corpos cegos (7Letras, 2012):
o olho enterrado
na carne,
tão próximo da noite
quanto o silêncio da loucura.
A mutilação e o enlouquecimento da anatomia parecem-me meios de alcançar, nesta poesia, o informe, assim como a obnubilação do referente. O livro Como assistir a um road movie em pé oferece-nos diversas realizações desse ideal; cito o começo de "Janelas sem vidros lançam um terrível reflexo":
Sem ir ao extremo de dizer que a realidade,
neste quarto, também era uma forma
de mutilar nossos corpos,
E isso talvez seja o mais próximo de um poema de amor no livro. Em outro texto teórico, "Ponto de laceração: a morte como desarticulação nos poemas de Ana Cristina Cesar e Orides Fontela", o poeta (que é professor  na Universidade do Estado de Minas Gerais) estudou o "poema como objeto sacrificial e encenação da morte" em Orides Fontela e a encenação da morte do sujeito em Ana Cristina Cesar.
É curioso que seus interesses teóricos encontrem correlato tão forte em sua poesia. Um dos melhores poemas do seu último livro chama-se nada menos "Aruspicação", e corresponde a uma fala, claro, dos adivinhos que leem vísceras. Eles tentam justificar-se:
Se há integridade naquilo
que fazemos?
Mas claro que há.
Não andamos
sobre sepulturas à toa.
Usamos diagramas, tabelas,
gráficos, e calculamos,
no fundo de nossos
corpos, quanto de vísceras
precisaremos para nos amarrarmos
uns aos outros,
para que, no escuro,
não batamos nas paredes.
Temos aí uma bela imagem para o que significa a tradição poética? Os poetas, mais ou menos mortos, amarrando-se com vísceras para não bater nas paredes, em vez de derrubá-las? Aberto com o verso "Não há assassino entre nós", um gesto de denegação, o poema termina desesperançado:
Não estamos mortos.
Apenas pensamos
como mortos,
agimos como mortos,
na esperança de que não haja
assassinos entre nós.
Bataille é uma das referências teóricas importantes para Alexandre Rodrigues da Costa, que nele destaca a insistência no corpo dilacerado para abrir-se sacrificalmente ao "ilimitado". Cito, do poeta, Acidentes de leitura:
Se a imagem se torna insuficiente, é porque ela foi dilacerada, exposta a esse erro que lhe corta as amarras com o reconhecível e a deixa tão vulnerável quanto pode ser em sua origem. O glitch possibilita, dessa maneira, resgatar o corpo a partir de uma multiplicidade negativa, pois cada fragmento de imagem, combinado com outros, de forma aleatória, se apaga em sua origem, mesclado aos reflexos que deixa e às sombras que projeta. A partir dessa perspectiva, o corpo se abre ao ilimitado como se fosse o da vítima em um ritual sacrificial.
Creio que, nesta poesia, a impressão deixada é a do indefinido, mais do que a do ilimitado. O sacrifício está presente em vários dos poemas, como "A sobrevivência dos mortos", com uma alegria que se compraz na morbidez:
Parece que estão
sempre atrás de nós,
com o chicote nas mãos
prestes a nos cortar
a carne com a alegria
típica dos anjos.
O trauma nunca explicitado e, por isso, ainda mais forte, encontra a imagem de uma fratura original em "Weltinnenraum", nome do espaço íntimo do mundo segundo Rilke; nesta poesia, no entanto, é um osso fraturado de um morto, trazido desde a infância:
Finge olhar o que
de perto morre,
acaricia, com medo,
a parte oculta,
o osso quebrado
que as larvas não alcançam.
"Um dois, três."
"É ali", diz a criança,
"que meu brinquedo
se esconde."
O clima aqui é completamente diverso do de "Tarde de maio", de Carlos Drummond de Andrade, que celebremente começa "Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos/ assim te levo comigo, tarde de maio", apesar da referência drummondiana a "disjecta membra". Na fratura original do poema de Alexandre Rodrigues da Costa, temos a promessa da loucura: "A vida, alguém comenta,/ perde a razão.", escreve em um dos melhores poemas do livro, "Medo":
Com o mar aprisionado
pelos ossos,
vejo o deserto onde,
à luz vacilante da saliva,
ela gargalha.
O vidro se quebra.
Antes que as mãos sangrem
cubro o medo
com a noite,
com o que resta das palavras.
Mergulho a face
entre as lâminas,
sem me importar se ela
cuidará das feridas.
Feridas, cortes, facas, chicotes. "A pele da lâmina" parece combinar Cabral e Gullar:
Com a faca dentro da carne,
como não sentir o cheiro
das frutas podres a impregnar a casa,
No entanto, não temos no poema nem o impulso metalinguístico de Cabral nem a celebração da vida que fervilha no apodrecimento, tão típica de Gullar. Alexandre Rodrigues da Costa realiza outra coisa, um elogio do informe, que ele encontra em Bataille e exalta. No artigo "Corpos lacerados: o sacrifício da palavra na obra poética de Georges Bataille", esta passagem serve, penso, para entender sua própria poesia:
O informe assinala, portanto, a desistência de dominar a matéria. Mas para que se vá ao encontro dessa matéria informe, é necessário abraçar os caminhos da transgressão. E para que a transgressão ocorra, a contradição deve ser percebida como a afirmação daquilo que é profano, ou seja, a nossa própria existência. No instante em que o pensamento se volta para o dualismo, não há espaço para conciliação ou redenção, mas para o fracasso. Por isso, pensar e conceber o poema sob os desígnios do informe deixa, na página, como se fosse ferida, uma palavra sempre aberta, fundada no descontínuo, no fragmentário. O desconhecido, aquilo que não tem resposta, passa a dominar a linguagem e o que se estabelece é uma tensão não resolvida entre nascimento e morte, entre o transitório e o permanente. Longe de uma síntese, o informe abraça simultaneamente os dois termos, sem que haja uma conclusão, um fim.
Diferente de Bataille, esta poesia não tem como marca o erotismo. Este lugar da transgressão não lhe é importante. Em "A dissecação e a reconstrução de Marilyn Monroe - parte 3", o foco é o "medo inalcançável", e não o apelo erótico da artista.
Há algum road movie nesta poesia que, ironicamente, tem na cegueira autoinfligida seu modo de produção? Encontramos ironia a respeito dos produtos industriais de Hollywood:
Os mortos não são como antes,
há muito seus gestos
tornaram-se calculados
e hoje, dizem, atuam
em filmes hollywoodianos.
O trecho vem do poema que recebe o título do livro. O último poema, "O corte preciso", insinua uma história, mas foge da narratividade; poderia ser um filme de Godard, não uma produção de Hollywood:
O corpo perdido em si mesmo
se mescla ao choro daqueles que não
podem vê-lo,
aos jornais despedaçados sobre a mesa,
às cenas que jamais explicam
o que virá em seguida.
Não se sabe quando a mataram,
depositaram, sob a água,
nada além de dias mais longos.
Nesta poesia, o corte pode ser tanto a forma de assassinato do corpo, ou o recurso cinematográfico. Essa ambiguidade é fundamental para este autor, que não quererá distinguir entre poética e crime, poética e morte, na bela imagem da falta, com que o livro se encerra: "nada além de dias mais longos".



sábado, 31 de dezembro de 2016

Nota para 2017: Sá-Carneiro, "em mira o grande salto"

2016, para mim, ficou marcado, entre outros episódios, pelo centenário da morte do escritor português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916). "Vencer às vezes é o mesmo que tombar", escreveu, e escolheu a dispersão de si mesmo em Paris, num quarto de hotel, dia 26 de abril, aos 25 anos.
No epistolário que manteve com Pessoa (cujas cartas infelizmente se perderam), gostaria de lembrar
da carta de 24 de agosto de 1915. Nela, Sá-Carneiro comparou-se ao amigo, afirmando-o superior, e se definiu como artista:
É assim, meu querido Fernando Pessoa, que se estivéssemos em 1830 e eu fosse Honoré de Balzac lhe dedicaria uma livro da minha COMÉDIA HUMANA onde você surgiria como o Homem-Nação [...] E é meditando em páginas como as que hoje recebi procurando rasgar véus ainda para além delas  que eu verifico a nossa grandeza, mas, perante você, a minha inferioridade. Sim, meu querido amigo  é você a Nação, a Civilização  e eu serei a grande Sala Real, atapetada e multicor [...] Amigo, confia-me, na crise em que ora se debate de se haver enganado: pois para si criar beleza não é tudo, é muito pouco  que "beleza" a ferro e fogo eu juro que você criou. A meus olhos pois o seu medo pode unicamente ser o de haver "criado beleza errada" (Estou certo que não, mesmo assim  é mera hipótese a minha suposição: um dia breve você encontrará a linha que ajustará tudo quanto volteia antagônico no seu espírito e tirará a prova rela de sua "razão"). Mas o meu caso é bem mais terrível a certas horas: Para mim basta-me a beleza  e mesmo errada, fundamentalmente errada. Mas beleza: beleza retumbante de destaque e brilho, infinita de espelhos, convulsa de mil cores  muito verniz e muito ouro: teatro de mágicas e apoteoses com rodas de fogo e corpos nus.
A impressão que apenas Sá-Carneiro tinha naquela época, e que para quase todos seria motivo de escárnio, confirmou-se décadas depois. Nos 50 anos da morte de Pessoa, o amigo já tinha sido sido considerado um dos nomes maiores da "nação", como Camões e Vasco da Gama.
O mesmo nunca ocorreu com Sá-Carneiro, embora reconhecido postumamente na condição de "um dos pais fundadores do século" (Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX) e um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Ele, de fato, não tinha o objetivo de escrever um livro que pudesse ter como título "Portugal", muito menos uma obra cuja Mensagem, em certo sentido, fosse a nação. Jamais o criticaria por isso...
Creio ser muito necessário desconfiar da civilização, da nação e da beleza, e que o artista pode tratar todas elas à base da implosão. Dito isso, cito parte do "Escala", de Sá-Carneiro, em que ele trata daquela beleza que procurava:
Eh-lá! mistura os sons com os perfumes,
disparata de cor, guincha de luz!
Amontoa no palco os corpos nus,
Tudo alvoroça em malabares de lumes!
Recama-te de Anil e destempero,
Tem coragem  em mira o grande salto!
Ascende! Tomba! Que te importa? Falto
Eu, acaso?... Ânimo! Lá te espero.
Que nada mais te importe. Ah! segue em frente
Ó meu Rei-lua o teu destino dúbio:
E sê o timbre, sê o oiro, o eflúvio,
O arco, a zona – o Sinal de Oriente!
A escala dos corpos nus, das cores, perfumes, do palco  e do (grande) salto com outros. Ânimo. Lá, em 2017, seremos algo disto, ouro, eflúvio, arco... Espero.

Uma retrospectiva 2016: os direitos em colapso

Em 2016, consumou-se o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, mas, ao contrário do que ocorreu com Fernando Collor, a crise política não diminuiu, apesar do apoio político que Michel Temer ainda recebe de boa parte dos meios de comunicação. Marcos Nobre, em texto publicado na revista Novos Estudos do Cebrap, "1988 + 30", fala de colapso institucional:
O impeachment foi o sintoma mais grave de que as instituições entraram em colapso. Progressivamente, passaram a funcionar de maneira disfuncional, descoordenada, e mesmo arbitrária. Para ficar apenas no dia-a-dia dos três poderes: o Executivo perdeu capacidade de liderar o governo; o Legislativo instalou uma pauta própria, independente do governo; o Judiciário estabeleceu um regime cotidiano de decisões que se afastou de qualquer padrão conhecido de jurisprudência. Há poder de fato, mas não há poder legítimo.
wishful thinking (se consideramos que se trata de uma opinião sincera) de que "as instituições estão funcionando normalmente" não se verifica, tampouco no Judiciário. Nobre trata também dessa questão e da insegurança jurídica da crescente instrumentalização política desse Poder:
O Judiciário deixou de atuar exclusivamente segundo a lógica política indireta que o caracteriza — aquela dos pontos e das curvas que é própria do direito — para agir de maneira diretamente política sempre que acha necessário fazê-lo. Não aconteceu apenas em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Foi também diretamente política a decisão do juiz Sérgio Moro de divulgar sem restrições os grampos das conversas telefônicas do ex-presidente Lula, por exemplo. Como são diretamente políticos os vazamentos de pedidos de prisão, de indiciamento e de investigação que correm sob segredo ou mesmo sigilo de justiça. Até o momento, parece haver uma grande tolerância social para com a ausência de curvas visíveis nas decisões judiciais. Tolerância perfeitamente em consonância com a posição que assumiu o Judiciário de tutelar o país em meio à crise política. E só pôde se colocar nessa posição porque as instituições entraram em colapso, o próprio Judiciário, inclusive. Não se trata de uma crise conjuntural. Nada vai voltar a ser como antes depois que passar o vagalhão da Lava Jato. Porque a instabilidade não vem da operação, mas, ao contrário, vem do modo de funcionamento do sistema político que ela escancarou.
O modus operandi das instituições foi, de fato, escancarado; talvez o momento de abertura mais esclarecedor tenha sido a divulgação de gravação de conversa do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com Romero Jucá, em março deste ano. Machado fala que "a solução mais fácil era botar o Michel" e fazer "um grande acordo nacional", e Jucá acrescenta, "com o Supremo, com tudo", com o fim de parar a Lava Jato.
Enquanto isso, esperam-se outras delações, vindas da Odebrecht, que está sendo chamadas internacionalmente de "máquina de propina". Entende-se que, num país em que os escândalos se medem com bilhões, como nos indícios de superfaturamento da usina de Belo Monte, os Estados quebrem e a elite política queira fazer novos arranjos institucionais de saques da riqueza comum e dos direitos alheios.
Para tanto, ocorreu algum grande acordo? Veem-se grandes dissonâncias, apesar de momentos evidentes de pacto como a aprovação de impeachment e a desconstituição de direitos (a emenda constitucional n. 95/2016). Em outros momentos, a luta pelo poder torna-se evidente, entre os políticos e entre os Poderes instituídos. Ocorreram diversos atritos entre Executivo, Legislativo e Judiciário; em 14 de dezembro, decisão do ministro Fux, do STF, mandando refazer votação na Câmara dos Deputados do projeto anticorrupção que se afastou do projeto de iniciativa popular apoiado por parte do Ministério Público (especialmente a turma da Lava Jato), não gerou críticas apenas do Legislativo, como de seu colega Gilmar Mendes.
Trata-se de "briga de cachorro grande", escreveu André Dahmer, que acrescentou às perplexidades atuais esta perturbadora questão: "Você acha que cachorros devem controlar instituições?"
A produção do direito é uma atividade fundamentalmente política; por óbvio, em um ano como este, o direito brasileiro teria que ter sofrido diversas torções incompatíveis com critérios de integridade e coerência. Como os exemplos são diversos, listo apenas alguns - houve muito mais, espero ler reais retrospectivas que abordem os retrocessos jurídicos sofridos. Não ousei mencionar os projetos legislativos ainda não aprovados no Congresso Nacional pois se trata de matéria quase inumerável.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Apequenamento da imprensa, estreitamento da literatura

Esta nota é apenas um desabafo no âmbito das coisas que se perderam em 2016. Provavelmente não houve nenhuma alteração na grande imprensa brasileira, nos últimos anos, que não tenha sido regida pela diretriz do dumbing down. O jornalismo digital, com sua política de clique a qualquer custo, baseada em bobagens apelativas, notícias falsas ou não verificadas, não mudou esse processo.
A literatura é uma das artes que sofrem nesse processo. Como sinal desse apequenamento generalizado da imprensa brasileira, os jornais vão extinguindo seus cadernos literários, e dando mais razões para que deixemos de lê-los.
O término do Sabático de O Estado de S.Paulo, anunciado curiosamente sob o pretexto de "oferecer mais conveniência aos leitores do jornal" (para esse jornal, a leitura é inconveniente?), o fim do caderno Prosa de O Globo, em setembro de 2015, curiosamente "comemorando" o aniversário do caderno, são algumas das imolações recentes. Quando tuitei a extinção do Guia de Livros, Discos e Filmes da Folha de S. Paulo, anunciada sob o título sorrateiro de estreia de novo projeto gráfico e editorial e realização de "mudanças", não vi nenhuma repercussão, talvez em razão do formato reduzido das resenhas publicadas, pouco maiores do que um tweet;  mas ainda eram melhores do que nada.
Continuam vivos o Suplemento de Minas e o de Pernambuco. A revista Brasileiros, na contramão dessa tendência, criou um caderno de literatura há poucos anos. Oxalá continue. A revista Continente prossegue, e o jornal Rascunho também.
A grande imprensa diária, porém, quase toda, decidiu que a literatura não é mais com ela, exceto pelos nomes e prêmios ligados aos anunciantes. A lógica do star system, tão nociva à arte, tão cultivada pelo marketing, impera. Não mais se poderá acompanhar os lançamentos da literatura brasileira, havendo tantos nomes interessantes em pequenas editoras, por esses periódicos.
Outra questão, correlata, está no marketing, a assumir gradativamente o comando das linhas editoriais, vem presidindo o fim dos departamentos de literatura em editoras. É o que me contam amigos editores.
Com o fim, por exemplo, do departamento de literatura da editora Ática, pessoalmente sinto nostalgia: na escola, algumas edições da série Para gostar de ler foram fundamentais para me interessar mais por literatura brasileira.
Em termos coletivos, este é mais um sinal da retração da literatura que vem nas gigantescas editoras especializadas em infantojuvenis, que se concentram nos livros didáticos, em geral de maior tiragem. A suspensão das compras governamentais é um fator importante dessa crise, e a forma como a gestão nessas grandes corporações é estruturada é outro fator.
Nesse ponto temos outro fator de estreitamento da literatura na cena pública, mas há  outros. O ódio à educação, exceto como oportunidade de negócios (venda parcelada de diplomas, compra de autorizações, promessas e programass eleitoreiros), é uma das características fundamentais da elite brasileira, que é, ela mesma, pouco educada, o que foi tema de artigo recente de Matias Spektor (https://www.google.com.br/amp/m.folha.uol.com.br/amp/colunas/matiasspektor/2016/12/1843582-a-formacao-da-elite-brasileira-patina-e-condena-o-pais-ao-atraso.shtml).
O espancamento de professores e alunos pelas polícias comandadas pelo PSDB em São Paulo e no Paraná,  pelo PMDB no Rio de Janeiro,  pelo PT na Bahia, e em outras partes do país,  mostram que se trata de uma questão suprapartidária. Os projetos de "escola sem partido", leis da mordaça, correspondem a outra feição desse ódio, bem como a lucrativa (para outros) entrega de escolas públicas para organizações sociais.
Esse ódio, claro, afeta a literatura. E a grande imprensa o fomenta, seja atuando como assesoria para as medidas do grupo que tomou a presidência da república (como a estupidez da reforma do ensino médio), seja emprestando seu megafone, sem contraponto algum, a figuras que nada entendem do assunto, como o ex-ministro do STF e da Defesa (entre outras funções públicas, inclusive a de alterar o texto da assembleia nacional constituinte: http://m.migalhas.com.br/quentes/187605/historia-dos-artigos-da-constituicao-que-nao-foram-votados), que recentemente deu uma longa entrevista atacando as universidades públicas. Também nesses momentos a imprensa se apequena.
Por pudor, não cito a matéria . Se essas instituições desaparecessem amanhã,  e ficássemos apenas com os grandes conglomerados privados que angariaram o título de universidades (muito incentivadas na penúltima e na antepenúltima administrações federais), além do corte gigantesco na produção acadêmica nacional, teríamos o desaparecimento de várias áreas do saber, menos lucrativas para esses conglomerados,  seja por exigirem mais investimentos,  seja pelo menor número de clientes.
Uma das áreas afetadas seria exatamente a Literatura, que tem diversos centros de destaque nas instituições públicas.
Creio que uma resposta possível a esse quadro seria o engajamento dos escritores, nessa condição de artistas, contra esse quadro de estreitamento e seus fatores.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Desarquivando o Brasil CXXXII: Cardeal Arns, "propagandista da rebelião popular"

Morreu Dom Paulo Evaristo Arns no último 14 de dezembro, com 95 anos. Seu velório, na Catedral da Sé, durou da quarta até a sexta-feira, dia 16, com missas de duas em duas horas. Assistia a uma delas, na tarde da quinta-feira. A foto abaixo, que tirei naquele momento, apenas sugere a multidão que lá estava para se despedir do religioso.

Li algumas das diversas notícias sobre o Cardeal, Arcebispo Emérito de São Paulo, um dos personagens mais importantes da história recente do Brasil. Elas abordaram a formação da Comissão Justiça e Paz, a substituição de Agnello Rossi, colaborador da ditadura militar, a atuação de Arns após o assassinato de Alexandre Vannucchi Leme, o ato inter-religioso por ocasião do assassinato de Vladimir Herzog, sua reunião com Jimmy Carter quando o presidente dos EUA visitou o Brasil, o apoio ao movimento pela anistia e ao movimento contra a carestia, seu auxílio a Adolfo Perez Esquivel, prêmio nobel da Paz preso no Brasil, a Pastoral de Direitos Humanos, o projeto Brasil: Nunca Mais, a divisão de sua Arquidiocese que o Vaticano promoveu para enfraquecê-lo...
São muitos os episódios que, em regra, ressaltam a coragem. Pois ele teve diversos inimigos que, em regra, agiam insidiosamente. Foi o caso, por exemplo, de uma edição falsa do jornal da Arquidiocese paulista, O São Paulo, em 1982, com uma declaração de mea culpa, inventada, atribuída a Arns sobre a infiltração do comunismo na Igreja Católica. Apesar de a declaração ter sido bem recebida por nomes conservadores da hierarquia católica, foi essa Igreja, e não o Deops/SP (imprestável para investigar crimes da direita), que descobriu uma das gráficas onde rodara a falsificação.

No Deops/SP, ele foi objeto de mais de quarenta fichas. Há centenas de páginas de documentos sigilosos da época da ditadura militar sobre Arns, que, por sinal, foi ameaçado de morte diversas vezes. Ao lado, vemos um panfleto da "Vanguarda de Caça aos Comunistas", um dos grupelhos terroristas de direita que se insurgiu contra o lentíssimo processo de abertura política (que ameaçava, em termos de cargos, verbas e oportunidades de negócios, os agentes da repressão).
O documento está no acervo Deops/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Um dos nomes marcados era o de Evaristo Arns, o segundo a ser mencionado: o primeiro, Dom Adriano Hipólito, e o terceiro, Pedro Casaldáliga, ambos de atuação tão conhecida, também foram importantíssimos nomes da hierarquia católica que se engajaram contra a ditadura militar.
Arns chegou a ser chamado de Satanás e de "propagandista da rebelião popular" por assessor do então Ministro da Justiça Ibrahim Abi Ackel, no Correio Braziliense em 30 de julho de 1980. Como a rebelião era uma necessidade da época da ditadura militar, queria recordar somente alguns destes momentos insurgentes.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Desarquivando o Brasil CXXXI: Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo: Prêmio e relatório final



Neste dia 12 de dezembro, às 18 horas, no auditório do Ibirapuera, será entregue pela primeira vez o Prêmio de Direito à Memória e à Verdade Alceri Maria Gomes da Silva, criado para atender a uma das recomendações da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo.
A cerimônia ocorrerá durante o 4o. Festival de Direitos Humanos da Prefeitura. O jurista Fábio Konder Comparato receberá o troféu; o Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Unifesp e a cineasta Tata Amaral receberão menções honrosas.
Os vencedores desta edição foram escolhidos pelos atuais membros da Comissão: Adriano Diogo, Audálio Dantas, Camilo Vannuchi, Fermino Fecchio e Tereza Lajolo (coordenadora). Já foram membros Fernando Morais, que a deixou em 2015 e foi substituído por Diogo, e Cesar Cordaro, cuja vaga foi preenchida por Vannuchi em 2016.
O nome do Prêmio nasceu de sugestão de Vivian Mendes, assessora da Comissão. Alceri Maria Gomes da Silva pertencia à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Foi enterrada no Cemitério de Vila Formosa, na cidade de São Paulo, mas seu corpo continua desaparecido. Vejam nesta ligação, da Comissão "Rubens Paiva", a história da militante e os documentos concernentes.




Em 15 de dezembro, no auditório da Prefeitura (Viaduto do Chá n. 15, 7o. andar), às 11 horas, será entregue o relatório final da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo. Criada com base na lei municipal n. 16012, de 16 junho de 2014, ela foi instalada em 26 de setembro daquele ano, e encerrará suas atividades neste mês de dezembro de 2016.
O documento ficará disponível, pelo menos durante a administração de Fernando Haddad, no sítio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.
A Comissão já havia publicado um relatório parcial em 2015 e outro, em 2016, com suas recomendações.
O documento final trará capítulos sobre a própria Comissão, sua competência e suas atividades, o regime de exceção, uma linha do tempo segundo os Prefeitos da cidade, bem como sobre a perseguição aos trabalhadores municipais, desaparecimento e ocultação de cadáveres, repressão aos movimentos sociais, os indigentes e o desaparecimento no serviço funerário, as recomendações  e uma seção de fotos.

P.S.: Os relatórios podem ser baixados aqui: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/direitos_humanos/comissao_da_memoria_e_verdade/index.php?p=223130

Esta nota foi escrita no âmbito da Blogagem Coletiva #DesarquivandoBr, cuja chamada pode ser lida nesta ligação: https://desarquivandobr.wordpress.com/2016/11/29/nova-mobilizacao-do-desarquivandobr/