O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

domingo, 12 de junho de 2011

1964 e a Voz do Autor: Eduardo Sterzi e Desarquivando o Brasil X

Meu amigo Eduardo Sterzi vai falar no ciclo Voz do Escritor, organizado há vários anos pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. O evento ocorrerá no Auditório da História, dia 14 de junho de 2011, terça-feira, às 19:30h. Já pude ver vários autores nesse ciclo, como Francisco Alvim, João Gilberto Noll, Ricardo Aleixo, Waldo Motta, Cristóvão Tezza, Chacal. Estarei lá também.
Conheci Eduardo Sterzi quando eu estava a organizar um dossiê sobre Murilo Mendes para o finado periódico cultural Ciberkiosk. Já havia lido alguns poemas seus na revista Cult, quando Manuel da Costa Pinto a editava, e tinha notícia de que ele havia escrito uma dissertação sobre Murilo.
Li, então, a dissertação "Figuras do sublime: a retórica da catástrofe em Murilo Mendes", que ganhou o prêmio da ANPOLL em 2004 de melhor dissertação na área de Literatura no Brasil.
O monumental trabalho (infelizmente, ainda inédito) está à altura do poeta: Murilo, em sua obra, circula da Antiguidade até a ONU, passando pelos profetas, santos, Mozart e Kafka. O trabalho de Sterzi (em cada página, literalmente) faz jus a essa envergadura.
Penso que os melhores trabalhos dele sejam aqueles em que enfrenta poetas que querem ser tão largos quanto o mundo, como Dante e Drummond - leiam antes a análise de Fabio Weintraub sobre "Drummond e a poética da interrupção", ensaio desbravador de Sterzi.
É muito raro que ensaístas com esse fôlego tenham talento para poesia. Seu primeiro livro de poesia, Prosa, não faz jus a seu talento como crítico. Acho que essas duas facetas vão se encontrar no mesmo nível em Aleijão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).
Lembro de entrevista que concedeu a Leonardo Gandolfi:

[...] se você me perguntar se a minha poesia (e não a poesia em geral) nasce da fusão drummondiana de tempo e poeta sob o signo da pobreza, a resposta é sim, principalmente se levarmos em consideração este livro que estou lançando, Aleijão, concebido desde o princípio como uma espécie de intermitente reflexão poética sobre uma época que me parece singularmente catastrófica, tanto no plano brasileiro quanto no plano mundial. Digo “singularmente” porque a nossa catástrofe atual não apenas se esconde sob um manto resplandecente de triunfalismo e espetáculo, mas parece se confundir ponto a ponto com este manto. Contra as imagens triunfais que tentam se apossar de nós – o “Brasil Grande” do pré-sal e das Olimpíadas do Rio, a Democracia Universal da Pax Americana (cujo cerne problemático permanece o mesmo de Bush a Obama) –, prefiro acreditar que a escassez continua a definir os nossos sonhos, que construímos com restos, com o que sobra das imponentes construções ideológicas. Mais uma vez Drummond tem de ser lembrado aqui, pois o que é o seu poema “O elefante” senão uma figuração genial desse trabalho de resistência? O “pobre elefante” que as pessoas na rua não querem ver nem mesmo para zombar de sua fragilidade e muito menos para reter a sua “fugitiva imagem”, no fim se desmancha. Ao poeta só cabe dizer: “Amanhã recomeço”. Cada poema deste meu novo livro parece tomar a forma de uma tentativa de recomeçar de novo e de novo e de novo... – depois da destruição, sem esquecer a destruição.

Normalmente desconfio muito do que os poetas afirmam sobre o próprio trabalho (geralmente escasseia a lucidez onde a autopromoção viceja), mas concordo plenamente com que Sterzi diz sobre esse livro. O Aleijão é, principalmente, antitriunfalista e antimonumental desde o tom. Os usos que faz da memória, pessoal e coletiva, assemelham-se a sussurros de subversão - como os dos ratos que roem o edifício do século no poema de Drummond.
Quero aqui lembrar do poema que fez sobre os quarenta anos do golpe militar, "País" - e por isso incluo esta nota na série Desarquivando o Brasil, de que participo a partir de convite da jornalista Niara de Oliveira.
O leitor desavisado perceberá aquilo de que o poeta fala apenas no fim: após o último verso, temos a data "31 de março - 1º. abril 2004". Esse recurso, da data indicar o tema, foi empregado por ele outras vezes, como em "(Plano 100)", e ressalta o papel da memória nesta poética.
Assim a primeira parte do poema começa (a primeira palavra é recuada, mas, idiotamente, não consigo reproduzir a diagramação no blogue):

Isso
que chamamos "amigos"
e às vezes perdemos
porque o repuxo os carrega
sempre mais para o fundo:
para antes das ondas,
onde morrem os peixes;
para depois da memória,
onde morrem duas vezes

Esse repuxo é pelo menos duplo: são as vagas da memória, onde os mortos submergem e desaparecem mais uma vez (os "amigos"), porém também é dos desaparecidos na ditadura que foram jogados no mar. Chico Buarque, na linda canção Angélica, do genial disco Almanaque, também se referiu a essa prática a propósito do assassinato de Stuart Angel.
Essa parte termina com o desfazimento de "isso", "sombra/ que a luz/ do farol atravessa." Esse farol é o marinnho, e não o semáforo paulistano. A luz dos faróis, que serve para localização, é inútil neste contexto: os corpos estão perdidos "onde morrem os peixes".
Na segunda parte, dois versos de uma só palavra também estão recuados, "Isso" e "náufragos":

Isso
que é tábua
de solidão
a que nos
agarramos
quando falta o
chão e,
náufragos,
sonhamos com terra

- isso é quase um país.

Nós, que nos recordamos dos desaparecidos, também somos náufragos e agarramo-nos à memória para não afundar. É terrível ler que essa tábua flutuante, obviamente incapaz de substituir a terra, "é quase um país".
Pode esse frágil substituto para a terra servir de pátria? A memória também não seria antes afirmação do que negação do desastre e do exílio? Eduardo Sterzi não cultiva ilusões sobre eventuais poderes redentores da memória e conclui a segunda parte e o poema de forma implacavelmente lúcida:

Mas esse país
não existe. Esse país
não presta.

A repetição de "esse país" é bastante eloquente e sublinha o solo que falta a "isso", sua negatividade. A criação de um solo comum talvez seja uma tarefa da poesia, como é um trabalho da língua - mas quanto de desfazer há nessa tarefa. Os melhores momentos de Aleijão, penso, são os de um discurso que tenta afirmar ao (se) desfazer.
Esse trabalho formal é o da arte e difere do texto do historiador. A convergência (para usar uma palavra muriliana) de ambos talvez esteja (creio) no trabalho com as ruínas e os restos, que devem gerar e/ou recuperar discursos. Vozes extraviadas de seus autores.

P.S.: Fiz aqui uma lista dos vídeos de Eduardo Sterzi no programa da USP Voz do Escritor, em que se o pode ver falando da própria poesia e de Drummond, Borges, Mallarmé...
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/01/videos-da-voz-do-escritor-com-eduardo.html

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