O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda

30 dias de canções
Dia 3: Uma canção que faz lembrar a natureza

Um ponto de Ogum, "Se o céu é lindo", de autor anônimo. 
Nunca ouvi este ponto em terreiro (um lugar que poucas vezes estive), e sim em casa. Aprendi-o com esta letra: "Se o céu é lindo/ O mar também é/ Aonde vais cachoeira/ Vou derramar/ Toda esta mironga/ Nas ondas do mar." A mironga (palavra que vem do quibundo, um dos idiomas bantos), no caso, é o feitiço.
Como se trata de música da tradição oral, há mais de uma versão. Encontrei outra letra neste outro blogue, que menciona explicitamente o Beira Mar e a Rainha do Mar (Iemanjá, evidentemente): http://reidospontos.blogspot.com.br/p/pontos-de-ogum.html
Ogum, o orixá guerreiro, ligado ao ferro e às ferramentas, comanda, na tradição da umbanda, a chamada Linha de Ogum, que é, segundo o livro Cantigas de umbanda e candomblé (Pallas Editora: São Paulo, 2008), "constituída por espíritos guerreiros que defendem os filhos-de-fé contra lutas e demandas".
Uma das sete legiões em que se organizam esses espíritos, segundo a mesma obra, é a "Legião do Povo do Mar, chefiada por Ogum Beira-Mar e relacionada à linha de Iemanjá". Este ponto está ligado a Ogum Beira-Mar.
A umbanda, que completará 110 anos em 2018, além de se reivindicar "mestiça como o povo brasileiro", combinando elementos de religiões africanas, ameríndias e do cristianismo, herdou das duas primeiras tradições uma profunda ligação com a natureza. 
Em muitos dos pontos de umbanda, não se trata, na verdade, apenas de mera lembrança da natureza, mas de afirmação de pertencimento.
Lembro Roberto Piva e o contraponto que ele fazia entre as religiões do deserto, que era como chamava o judaísmo e as que dele vieram (as tradições cristãs e islâmicas), e as religiões da floresta. Como poeta-xamã, ele preferia as da floresta e combatia as moralidades do deserto.
O volume Roberto Piva da Coleção Postal das editoras Azougue Editorial e Cozinha Experimental, publicado em 2016, inclui um poema, "Meditações de emergência 1", em que alerta, bem de acordo com aquela dicotomia, contra o deserto: "África prepara o batuque das auroras/ África prepara as zagaias da poesia/ as ruas asfaltadas do fim do mundo/ os escorpiões aninhando-se na palma da mão/ como nuvens/ você que vai me amar neste ano de 1979/ cuidado com os inventores do deserto".
Li, por causa, desta nota, um artigo de Diamantino Fernandes Trindade, "O uso indevido dos pontos cantados de umbanda" (no livro organizado por ele e Ronaldo Antonio Linares, Memórias da Umbanda do Brasil, editado pela Ícone em 2011; a maior parte desse capítulo está nesta ligação). As gravações para divulgação da umbanda são elogiadas; nessa categoria, o autor destaca Martinho da Vila, Noriel Vilela e Ronnie Von. Ele critica os que usaram melodias dos pontos para compor canções com outros fins, como Lamartine Babo teria feito.
Para ouvir o ponto, portanto, pode-se, espero que devidamente, clicar nesta ligação.

Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza



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